
Planificacao e continuidade na pesquisa
cientifica
Artigo de Roberto A.Salmeron
Salmeron e' diretor de Pesquisa Emerito no Centre National de la
Recherche Scientifique (CNRS), e trabalha na Ecole Polytechnique, na Franca.
Este artigo foi publicado no "Correio Braziliense", no Domingo, dia 11/6/00, e
transcrito do Jornal da Ciencia (JC E-Mail)13/junho/2000 - No. 1561 - Noticias de C&T
- Servico da SBPC
Em todos os paises a pesquisa cientifica comecou com iniciativas
individuais, estimuladas pela curiosidade. Atingindo certo nivel de desenvolvimento, com a
variedade de campos de atividade e aumento do numero de pesquisadores, ela necessita de
planificacao.
A arte de planificar a pesquisa num pais moderno consiste em
utilizar a competencia de seus cientistas de todas as areas para que eles orientem na
definicao das prioridades e, uma vez definidas as prioridades, nao interferir na
iniciativa dos cientistas. Eles sabem o que devem fazer.
Planificacao pressupoe continuidade de amparo. E este e' o grave
problema que o Brasil tem de resolver, se quiser que sua ciencia progrida: tornar
ininterruptos os processos de financiamento, para manter a continuidade dos projetos e das
pessoas de geracao para geracao.
Nao temos politica cientifica. Temos instituticoes que, em certos
aspectos, desempenharam papel importante no desenvolvimento cientifico do pais, como o
MCT, o CNPq, a Capes, a Finep e algumas FAPs. Mas a existencia dessas instituicoes nao
significa politica cientifica no sentido de planificacao nacional com prioridades
definidas.A instituicao que tem acao mais significativa no amparo 'a pesquisa e' a Fapesp,
precisamente por causa da continuidade: governos sucessivos do Estado de SP tem cumprido a
lei, simplesmente.
E' lamentavel o que se passa em outros Estados, cujas FAPs ou tem
verbas desviadas, ou sao suprimidas. Nas instituicoes federais, das quais o exemplo mais
alarmante e' o CNPq, a competencia de seus dirigentes nao pode compensar as deficiencias
de infra-estruturas que foram enfraquecidas com o correr do tempo.
O que devemos entender por planificacao? Vamos citar sumariamente um
exemplo, entre muitos. Governos de paises avancados da Europa, entre eles a Alemanha e a
Franca - nos quais se reve periodicamente a evolucao da ciencia no mundo -, com assessoria
de eminentes pesquisadores estabeleceram prioridades cientificas para os proximos anos.
Tres ciencias serao prioritarias: as Ciencias da Vida, isto e', a
Biologia e a Medicina, na fase pos-genoma: a Informatica, ou, de modo geral, a Ciencia da
Informacao, com prioridade implicita 'a Matematica: e as Ciencias Humanas, devido aos
problemas inerentes 'a evolucao da sociedade. Prioridade a essas ciencias significa que a
elas serao destinados acrescimos de orcamento, sem detrimento do apoio 'as outras. Este e'
exemplo de visao longa.
Com o fragil amparo 'a ciencia brasileira, o presidente da Republica
anunciou, em 3 de abril, a criacao de fundos com cerca de R$ 1,2 bilhoes para pesquisa em
certos setores.Uma verba inesperada para a pesquisa e' sempre recebida com satisfacao,
acrescida com as palavras do presidente que "e' preciso que haja tambem mecanismos
que garantam a continuidade desses recursos". No entanto, a leitura atenta da
declaracao nos mostra que a satisfacao deve ser moderada por grande cautela e boa dose de
preocupacao, por varios motivos.
O primeiro, grave, e' que as medidas anunciadas tem ar de
improvisacao. Se o governo podera' obter quantia tao vultosa para a ciencia e a
tecnologia, e' surpreendente que nao tenha sido feito estudo minucioso, serio, das
necessidades reais antes de se decidir em que setores aplicar o dinheiro.
O segundo motivo de preocupacao e' que cientistas ativos,
conhecedores da ciencia nacional e internacional, nao foram chamados para assessorar na
escolha. O terceiro motivo de preocupacao e' que somente 20% dos fundos poderao ser
utilizados para as Universidades federais, e um fundo especifico ira' para o ministerio da
Educacao.
A maior parte sera' utilizada por empresas. Mas, sera' utilizada
verdadeiramente em pesquisa tecnologica? Para essas empresas, a palavra « pesquisa »
teria o mesmo significado que para os centistas ?
O quarto motivo de preocupacao, entremeado dos dois ultimos, e' que
parece estar se considerando que o cientista « puro » nao sabe o que e' tecnologia ou
nao quer dar atencao a ela. E' preciso lembrar que se faz pouca pesquisa tecnologica no
Brasil, nao por desinteresse dos cientistas, mas porque as industrias nao se interessam:
as multinacionais fazem pesquisa nos paises de origem, e as nacionais sofrem de uma
deficiencia cultural - nao tem o habito.
O quinto motivo e' que transparece claramente o erro de pensar que
e' possivel ter boa pesquisa tecnologica sem boa e extensiva pesquisa basica. Este erro,
no Brasil, e' uma especie de doenca nacional.
Nos paises tecnologicamente desenvolvidos, como os EUA, as
industrias mais importantes solicitam aos governos que deem apoio macico 'a pesquisa
fundamental nas Universidades, para que elas possam receber cientistas, engenheiros e
tecnicos bem formados, capazes de manter a vanguarda.
Essas procupacoes geram outras questoes. Quem vai utilizar as
verbas, e como ? Que papel terao os cientistas na definicao das opcoes ? Nao seria a
ocasiao de convocar pesqusisadores do mais alto nivel, que temos em todas as ciencias,
para que orientem nas opcoes, fazendo-se assim, pela primeira vez em nossa historia, uma
planificacao nacional ?
Com planificacao nacional, nao poderiamos estimular pesquisa
tecnologica em campos que sabemos serem da maior importancia para o futuro, nos quais ha'
pouca ou nenhuma atividade entre nos? E nao poderiamos tambem comecar a equilibrar a
grande diferenca de amparo 'a pesquisa existente entre SP e outros Estados ? Em resumo,
nao estamos perdendo excelente oportunidade de reorientar a ciencia em setores basicos?
A quantia de dinheiro anunciada e' colossal. Como comparacao, ela e'
igual a 30% da verba anual do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) da
Franca, para financiar totalmente todas as pesquisas em 47 setores cientificos diferentes
e o pagamento de salarios de 11460 pesquisadores e 12430 engenheiros e tecnicos, e
trabalhos de tese de 18000 estudantes.
Se eliminarmos os salarios nesta comparacao, o fundo previsto e'
superior ao que o CNRS gasta por ano em todas as suas pesquisas.
E' dificil prevermos as consequências do projeto, se for
realizado.Mas, com a experiência de todo o mundo nestes assuntos, podemos prever pelo
menos uma: se nao for dada 'a pesquisa básica a importância que ela deve ter, o projeto
dificilmente tera' exito proporcional ao esforço economico envolvido.
(Correio Braziliense, 11/6)


E-mail: mines@net.em.com.br

Atualização em 25 de agosto de 2000 (Sexta Versão).
Publicação em versão inicial em 28 de Setembro de 1997.
Webmaster: Maria Inês de Matos Coelho (Pesquisadora CNPq na
UEMG, Professora da UFMG, Consultora.)Apoio do CNPq e da FAPEMIG
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